Gucci redefine o conceito de luxo e dá início a uma nova fase sob a direção de Demna

Por Suzi Freitas | Editora-Chefe

Existem desfiles que apenas mostram uma coleção, enquanto outros criam algo mais especial: um mundo no qual todos desejam entrar, mesmo que por breves momentos. Nesse contexto, a Gucci revelou sua coleção Primavera/Verão 2027 em Milão, apresentando uma das interpretações mais marcantes de Demna desde que ele assumiu a direção criativa da marca.

Intitulado “The Store Show”, o evento transformou a experiência do luxo em uma verdadeira narrativa. O ambiente remeteu a uma sofisticada boutique da Gucci, sinalizando uma mensagem que se solidificou com cada nova aparição na passarela: após anos de discrição predominante na moda global, a grife italiana retorna para reafirmar um luxo que busca ser notado, admirado e, acima de tudo, desejado.

Ao explorar os arquivos da marca, Demna evita que essa jornada se torne mera nostalgia. A herança da Gucci é reimaginada através de figuras diversas, onde cada mulher parece incorporar uma forma única de pertencer a esse universo. Há influências da aristocracia, do estilo burguês italiano, do comportamento preppy e da sensualidade que sempre estiveram presentes na história da maison, agora unidas sob uma linguagem contemporânea e provocadora.

A alfaiataria se destaca com silhuetas que apresentam ombros largos e cinturas bem definidas. Peças como trench coats, couro, tartan, vestidos justos e jeans de cintura baixa dialogam entre a rigidez e a irreverência. O Horsebit, um dos ícones mais emblemáticos da Gucci, reaparece em proporções acentuadas, quase como uma joia, evidenciando a intenção de valorizar códigos históricos sem tratá-los como relíquias intocáveis do passado.

A sensualidade é recuperada com ousadia nesta coleção. Vestidos fluidos, transparências audaciosas, rendas delicadas e saltos finos evocam uma feminilidade potente e sofisticada. Embora haja reminiscências do glamour associado à Gucci nos anos 90, a proposta não busca reproduzir essa época; ao contrário, Demna utiliza essas referências como base para esboçar a mulher de 2027: confiante em sua presença e desinteressada em desaparecer dentro da roupa.

A beleza acompanhou essa nova atmosfera transformadora. Olhares penetrantes e cabelos com acabamento molhado contribuíram para uma estética mais dramática, afastando-se da neutralidade predominante nas últimas passarelas. Cada detalhe parece ter sido pensado para resgatar à moda sua teatralidade essencial — aquela habilidade quase esquecida que faz com que uma mulher vista uma peça e imediatamente sinta sua própria transformação.

O encerramento do desfile traduziu essa ideia com sutileza. Um vestido assimétrico drapeado sobre um ombro finalizado com um pequeno elemento metálico em formato de gota demonstrou que por trás do espetáculo reside o que fundamenta uma grande casa de moda: técnica apurada, proporção equilibrada, identidade forte e emoção genuína.

O que Demna está começando a desenhar para a Gucci vai além de tendências passageiras ou estações específicas. É visível uma tentativa clara de resgatar o prazer do glamour em um período no qual o luxo por muito tempo buscou parecer silencioso. A nova Gucci não tem interesse em sussurrar; ela recupera seus símbolos e reconhece sua história, entendendo que vestir-se pode também significar fantasiar-se, seduzir e ocupar espaço. Em uma temporada repleta de debates sobre as novas direções da moda, talvez essa imagem permaneça: a de uma maison que retoma o desejo como sua linguagem mais poderosa.